A viagem de Ariel ou Um conto de Natal

22 Julho 2008 por Catarina Landim

Texto de Vera Guidi

Ilustração de Catarina Landim 

 Blog Educar: A viagem de Ariel ou Um conto de Natal

Quem conhece o Ariel ?

Ariel - pra quem não sabe - é um menino super-legal, que tem a maior curiosidade sobre as coisas do mundo!

Seu coração é puro, cheio de amor. Amor de criança, que agradece todos os dias pela sua vida, pelas pessoas que ama, pelo seu corpinho de menino. De olhos bem espertos, que não param de espiar.

Mas o que Ariel mais gosta é de pensar!

Os adultos vivem dizendo: — Ôh, menino, você tá no mundo-da-lua ?

É que o Ariel, nessas horas, está pensando…pensando…Acreditam que ele pode viajar com o pensamento?

Certo dia, ele andava meio quieto, tristinho. Ninguém notou, já era no finzinho da tarde, quase noite. Os adultos estavam ocupados com seus afazeres, correndo pra lá e pra cá.

E o Ariel estava com a cabeça quente, sentado no jardim. Pensando, sismando, como costuma fazer.

No seu pensamento havia uma interrogação enorme. Numa concentração sem tamanho!Sua expressão estava séria, a testa enrugada. Como pode um menino pequeno estar tão sério?

Será que criança só brinca? Ou será que criança também percebe o que se passa ao seu redor?

E olhava para o céu, pensando, pensando.

O que será que ia na sua cabecinha, heim? Faz de conta que a gente pudesse ler os seus pensamentos, como num papel escrito…

Então daria pra saber que o Ariel estava assim porque andou ouvindo comentários e notícias da televisão…

Nossa! Só se fala em guerras, os povos estão brigando…

Os adultos nem percebem, acham que criança não entende. Ele anda escutando tudo, sim. 

Sabem…

É final de ano, e o Ariel sempre gostou de comemorar o Natal!

Das histórias, das cores, da música, do rosto alegre das pessoas.

Mais importante que presentes são os abraços que se recebe neste dia…  Ele acha que nesta época o coração das pessoas fica meio “amolecido” de Fraternidade.

Pena que não ficam assim no resto do ano… Que pena…

Em sua cabecinha de menino, ele acha que não vai ter esse clima de amor, neste ano…

Ele até anda brincando menos com seu cãozinho Tigre. Mas o Tigre, que é um amigo fiel, apesar de estranhar o seu silêncio, está respeitando o seu momento quieto.

Será que o Ariel entende mesmo o que acontece no mundo dos adultos?

Assim, quietinho, Ariel foi espiando a noite chegar e eis que viu uma luzinha perto de seu ombro.

Será que era um vaga-lume? Só que a luzinha foi aumentando de tamanho, meio azulada, brilhando forte. Nossa – pensou – que será essa luz ?

Piscou forte, uma, duas vezes, e se transformou numa silhueta feminina, toda clara.

Não deu medo, pois era uma figura muito bonita…

Exclamou: — Você é uma fada, como as das histórias!

A linda moça lhe disse: — Ariel, não sou uma fada, mas uma amiga sua e de seus pensamentos. É verdade que eles estão lhe deixando triste, ultimamente?

— É sim, disse o menino, você sabe o que se diz por aí? Que ninguém entende ninguém, neste mundo só de guerras…

— Eu sei, o desenrolar dos acontecimentos… É com o que se preocupa, não?

— Sim, acho que me enganei sobre as pessoas do mundo.

Sorrindo, a amiga perguntou:

— Gostaria de fazer uma breve viagem comigo? Preciso lhe mostrar algumas coisas deste mundo…

Me dê as suas mãozinhas, feche seus olhos e prometa que não terá nenhum tipo de medo. Ariel sentiu uma forte energia que envolvia seu pequeno corpinho, que decolava rapidamente para o alto, como num foguete de brinquedo do parque de diversões. Não abriu os olhos, até a amiga dizer que sim. Confiava que tudo ia acabar bem.

— Veja agora, Ariel, onde viemos parar.

Estavam agora em um belíssimo recanto, de relva verdinha, milhares de flores iluminadas pelo Sol, rodeados da mais encantadora Natureza. Pequenos animaizinhos corriam livremente, borboletas e passarinhos pousavam em suas mãos, ombros, cabeças, saudando sua chegada.

— Que lugar lindo!

— É um de meus preferidos. Sentemos debaixo daquela árvore. Tenho um livro para lhe mostrar. Vai gostar…

Acomodados, a amiga pegou um grande volume, de rica encadernação e disse:

— Ariel, este é um livro diferente, como verá. Na medida que o folhearmos não só verá as gravuras, mas sentirá as sensações nelas contidas. E sabe de uma coisa…é apenas um volume de uma coleção infinita…

— Como se chama? perguntou apressado e curioso.— É o LIVRO DAS BOAS AÇÕES.

E começaram a vê-lo, vagarosamente. A bela amiga lia em voz suave, cada capítulo era uma história. As página continham as mais belas imagens que Ariel jamais vira. E, como mágica, podia sentir as alegrias, as emoções contidas em cada gesto, ali representados com a maior precisão. Em seu rosto de menino brotavam lágrimas emocionadas, como dois riozinhos. Seu coraçãozinho, aquecido, iluminava-se. Uma aura intensa de amor envolvia-o da cabeça aos pés. Sorria o tempo todo, surpreso a cada instante.

— É incrível! – dizia.

E assim, passou-se o tempo. Um tempo que o relógio nem sentiu.

A bela “fada”, como Ariel disse, encerrou dizendo:

— Leve para sempre as lições destas lembranças reais. Irá buscá-las aos poucos, de dentro de si, em momentos de sua vida.

“A Terra, sim, meu filho, passa por dias difíceis, conseqüentes de atos difíceis de toda a História da Humanidade.”

“Mas a vida é muito mais…há milhares de tesouros escondidos, em todos os cantos do planeta. Tesouros que não são de moedas, mas de ações…”

“O BEM nem sempre aparece claramente aos nossos olhos. Veja como podemos atravessar a escuridão apenas com nossa pequena tocha de AMOR. Não desista de amar. Espalhe seu AMOR, sem receio.”

“Faça como os jardineiros. Plante sementes num pequeno jardim e siga adiante. Plante e confie. Pois os pássaros, o vento, os insetos, servidores do Equilíbrio, as espalharão em solos férteis.”

Ariel fechou os olhos e imaginou um lindo jardim. Pensou que nunca esqueceria tão valioso ensinamento. 

Quando abriu-os novamente, o cãozinho Tigre estava a olhá-lo fixo, pronto para latir, com seu olhar meigo, abanando o rabinho, feliz pela sua felicidade. Será que ele também vira a sua amiga?

E por falar nisso, onde estaria ela, a sua “fada”?

Ariel ainda a pressentia por ali.

No peito, a certeza de um dia poderia viver novamente outra incrível aventura.

Sentia algo diferente, maior do que o seu corpinho de menino pudesse carregar. Sentia um AMOR imenso pelas pessoas. Vontade de abraçar a todos e ajudar o próximo. Essa vontade, sabia, iria durar até ele ficar bem velhinho…

Trazia consigo as imagens bem gravadas, mas não conseguia distinguí-las claramente… Apenas vinham à mente os sorrisos, a paz, a felicidade de servir, a sensação da gratidão, e muitos sentimentos mais…

“ Ah, são estes os meus tesouros ! ”

- Ei, amiga, esqueci de perguntar o seu nome. Antes de ir embora, me diga, por favor…

Bem de longe, ainda pôde ouvir a suavidade de sua voz a dizer: 

— Meu nome é ESPERANÇA!

Por uma geografia além da visão

21 Julho 2008 por Catarina Landim

Texto de Fabrício de Lima, geógrafo e educador

Desde que os prussianos Carl Ritter e Alexander von Humboldt (no século XVIII) deram um caráter científico à geografia, ela passou a ter como característica empírica mais marcante: a visão do geógrafo.

Essa visão do cientista gerou em outras ciências discussões muito grandes, como na antropologia com o alemão Franz Boas que apresentou uma nova maneira de ver a cor das águas, que ele próprio aprendeu com os eskimós e divulgou na sua tese de doutorado: “Contribuições para o entendimento da cor da água.

Na geografia, acredita-se que um ser dotado de tanta habilidade era (ou é?!) capaz de captar o todo do espaço geográfico e sintetizar num desenho, num mapa, numa descrição.

Mas havia ainda a possibilidade de um outro geógrafo (tão gabaritado quanto) desmistificar o colega ou “lançar novas explicações” sobre um fenômeno.

E como ensinar pessoas com deficiência visual esse espaço geográfico que ela está inserida? Como fazer com que alguém que não enxerga ou tem dificuldade na visão compreender um espaço com linguagens científicas, interpretar um desenho, ou explicar um fenômeno? Elas apenas compõem o espaço geográfico, não podem entende-lo?

Como captar uma cachoeira, um rio com águas límpidas, ou as ruas tortas de uma grande cidade, uma manifestação industrial, problemas ambientais, a necessidade de terra num país com problemas fundiários, a cidadezinha abandonada, uma montanha, ou como seria a mata atlântica tão devastada que está, ou o gado nas pradarias?

Como levar para essas pessoas a geografia da percepção como pensou o geógrafo chinês Yi-Fu Tuan? Uma geografia entendida através de aspectos empíricos de cada pessoa, sabendo-se que existem pessoas com visões diferentes ou até sem uma visão, mas com vontade de aprender e compreender.

Difícil, mas não impossível.

E foi nessa missão que duas professoras adjuntas do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) embarcaram. Educadoras de fato, no sentido mais amplo da palavra, a engenheira cartógrafa Ruth Emília Nogueira Loch (mestre em geografia e doutora em engenharia florestal) e a geógrafa Rosemy da Silva Nascimento (mestre em engenheira civil e doutora em engenharia de produção) orientam os trabalhos de um grupo de dezessete pessoas (entre artistas, “designers”, geógrafos, historiadores, deficientes visuais e engenheiros) que compõem o LABTATE (Laboratório de Cartografia Tátil e Escolar).

Esse Laboratório produz materiais, artigos e pensamentos sobre uma nova maneira de cartografar o espaço e atingir pessoas que, até então, não tinham acesso essas informações.

Elas levam a sério a expressão do também geógrafo e escritor francês de “O pequeno príncipe”, Antoine de Saint-Exupèry: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos!”

Não querem só fazer uma alfabetização cartográfica, como se tem falado e comentado aos montes por geógrafos que lidam com educação. Esse grupo quer, levar cartografia e geografia para uma parcela da população que necessita conhecer seu espaço, não apenas como estudo ou vivencia, mas como sobrevivência.

Como seria a vida de um cego para notar os perigos nas ruas de seu bairro?

Utilizamos ainda hoje a experiência do dia-a-dia.

Por que não utilizarmos os mesmos recursos para nos localizarmos, para sabermos do perigo do nosso bairro, cidade, país, do mundo?

Por que não elaborar um mapa também para deficientes visuais?

Perguntas essas que o pessoal da Universidade Federal Santa Catarina está tentando responder.

A intenção desse grupo, por si só, já deveria ser louvada. Porém, além disso, louvamos também os resultados que eles têm obtido.

Sabemos que os recursos do executivo (estaduais, municipais ou federal) para pesquisa nas universidades são poucos, mas sabemos contudo, que se pode fazer muito com imaginação e vontade.

Recomendamos, portanto, que os professores acessem a página virtual do Laboratório. Mesmo se não há uma intenção latente em ensinar deficientes visuais. Mas pela minha própria experiência na educação pude observar que uma maquete, um mapa tátil, um globo com relevo atingem um efeito e o objetivo da geografia muito mais rápido.

E quão divertido é poder aprender “brincando”, sorrindo e sentindo (não apenas vendo) os fenômenos!

No site podem ser encontrado artigos, materiais para serem utilizados por professores e um bom e preciso guia de introdução à cartografia.

Para qualquer corrente de pensamento educacional que um professor ou pesquisador se debruce o mapa na geografia é um elemento de fundamental importância. O projeto e o site oferecem a possibilidade para professores de todas áreas conhecerem e transmitirem esses conhecimentos aos seus alunos. Conhecer a linguagem técnica de um mapa é como conhecer a linguagem técnica da escrita, se faz necessária uma “alfabetização” do aluno, cuidado e paciência do professor.

Para o pessoal do LABTATE, meus sinceros parabéns e votos de um sucesso cada vez maior!

Para todos uma boa navegação: http://www.labtate.ufsc.br/

Afinal, navegar é preciso…

Projeto de ensino com recorte e desenho de observação

21 Julho 2008 por Catarina Landim

Apresento abaixo os resultados da Oficina Gesto e Expressão com papel, que ministrei de abril a junho de 2008 em Indaituba, pela Oficina Cultural Regional Hilda Hilst, da qual participaram 07 alunas, a maior parte delas professoras de arte da rede estadual de ensino.

A proposta da oficina foi trabalhar o desenho de observação e técnicas diversas de recorte e colagem através de exercícios práticos, da introdução a noções de composição e cor e da observação e discussão de artistas que trabalharam com recorte em diversas épocas.

Um dos aspectos bastante discutidos e posteriormente trabalhado pelas alunas em sala de aula, foi a possibilidade do uso do desenho de observação e do recorte como ferramenta para “soltar” o desenho dos alunos daqueles estereótipos e cópias, caminhando para a descoberta da possibilidade de uma produção pessoal.

 Pode-se trabalhar a proposição do desenho de observação de objetos, espaços e de pessoas que depois são trabalhados com recortes com estiletes e tesouras e colagens em pápeis coloridos, que geram trabalhos bastante expressivos e permitem o contato com outros materiais além do lápis sobre papel.

 Ao propor o desenho de observação, é recomendado orientar os alunos a se preocuparem com as relações do objeto/tema: suas características principais, a proporção entre suas partes, sua posição em relação ao fundo, etc.

Acesse a apostila de introdução a Oficina com pequena galeria de imagens de recortes, história do recorte e noções básicas sobre os materiais.

Veja algumas imagens das atividades produzidas em aula.

  Blog Educar: Projeto de ensino com recorte e desenho de observação                                                            

  Blog Educar: Projeto de ensino com recorte e desenho de observação

Blog Educar: Projeto de ensino com recorte e desenho de observaçãoBlog Educar: Projeto de ensino com recorte e desenho de observação 

Dica: Arte Brasilis

15 Julho 2008 por Catarina Landim

Gostariamos de indicar o site Arte Brasilis, revista eletrônica de arte, ciência, filosofia, educação e cultura de paz, que apresenta textos e imagens muito interessantes para educadores e interessados em geral.

Você pode conferir o conteúdo do site em dois endereços:

1) ARTE BRASILIS 2: http://artebrasilis2.blog.terra.com.br/

Categorias: ACREDITE SE QUISER , CAMINHOSEDUCAÇÃO EM REDEENTRELINHASFAZ SENTIDO ?FIQUE LIGADO !GENTE EM AÇÃO !INCLUSÃO & DIVERSIDADEISTO É BRASIL !, NOTICIANDO, PAPO DE SEXTA-FEIRA, TEXTOS & ARTE, VIDA SAUDÁVEL

 2)  ARTE BRASILIS VÍDEOS:  http://arte.brasilis.zip.net/

Vídeos, imagens e interatividade com o leitor.

 Acessem!

Sobre o Origami

18 Junho 2008 por Cintia Namie Mori

Blog Educar: Sobre o Origami

“Um mágico transforma folhas de papel em pássaros” , 1819, xilogravura de Katsushika Hokusai

Com as comemorações do centenário da imigração japonesa, o ensino de origami ou dobradura propagou-se por todas as escolas.

Para que esta prática não caía numa mera atividade recreativa, escrevo abaixo um breve histórico do origami.

     “Origami” é uma prática de origem japonesa, também conhecida no Brasil como dobradura. Em japonês, “ori” significa dobrar e “kami” (que flexionada fica “gami”) significa papel. Assim, como a própria palavra japonesa explica, “origami” é a arte que parte de um ou mais papéis que podem ser de diferentes formas (quadrada, retangular, circular, etc) para criar as mais variadas formas de representação do mundo a nossa volta e/ou de nossa imaginação, através apenas de dobras, sem o uso de cortes.

     Até os dias de hoje, alguns dados sobre o surgimento do origami - como datas e região de origem - não são elucidados por completo, no entanto, acredita-se que a sua invenção esteja ligada ao uso do papel para a decoração dos templos no Japão.  

   Há registros em gravuras que comprovam o uso do origami em forma de “tsuru” (em português, grou, um pássaro sagrado no Japão) para entreter crianças pequenas, como móbiles.     

   Antigamente, essa tradição era passada de geração em geração apenas através de demonstrações presenciais. A primeira instrução de como dobrar um “tsuru” são do século XVIII. A metodologia de diagramação das diferentes formas possíveis de se dobrar o papel, bem como a criação de um código universal é mais recente.

       A sistematização das instruções das formas que se podem obter ao dobrar um papel, tornou-se extremamente necessária após a enorme difusão que esta prática conseguiu mundo afora, sendo que, atualmente, a dobradura, ou “origami”, deixou de ser uma arte exclusivamente japonesa ganhando traços característicos de outras culturas, através do surgimento de grandes mestres em vários países. 

     Friedrich Froebel (1782-1852), fundador do Movimento Kindergarten, introduziu o ensino das dobraduras nas escolas infantis da Alemanha, destacando os benefícios (motores, espaciais e matemáticos) que essa atividade trazia ao desenvolvimento das crianças.

        No Japão, grandes mestres como Toyoaki Kawai, defendem o ensino da dobradura como um exercício de observação e de externalização de sentimentos. Para ele, as características de quem dobra, bem como as suas emoções, independentemente de todos seguirem as mesmas instruções, sempre transparecem em todas as dobraduras. Além disso, ele defende o estudo aguçado de cada objeto ou coisa a ser transformada em dobradura, observação que deve ser feita em todo tipo de arte representativa.  

      No Brasil, destacam-se nomes como Maria Helena Costa Valente Aschenbach, a Lena das dobraduras, que difundiu a idéia de combinar o ensino das dobraduras à contação de histórias, e as pesquisadoras, Mari Kanegae e Alice Haga, entre outros.

Pocoyo

12 Junho 2008 por Catarina Landim

Desenho exibido pelo Discovery Kids, que mostra as brincadeiras e descobertas de um menino de três anos  que está aprendendo a falar e seus amigos Pato, um amigo tímido e muito engraçado, Elly, uma elefanta que adora música clássica e balé, Loula, cachorra que é a amiga inseparável do Pocoyo e Sonequita (ou Dorminhoca), um passaro que só dorme.

Vale a pena conferir pela qualidade das imagens e da preocupação com a formação dos pequenos telespectadores.

Nem branca, nem neve

11 Junho 2008 por Catarina Landim

É com grande satisfação que publicamos o texto de Silvia Regina Delazári Ferreira, escritora e professora da rede pública de ensino, escrito especialmente para o blog Educar, como fruto de suas reflexões e pesquisas sobre os contos de fadas hoje. Conheça mais sobre seu trabalho no site da Editora Adonis. A ilustração é de Catarina Landim.

Blog Educar: Nem branca, nem neve

Era uma vez uma menina magra, sardenta, de cabelos encaracolados, que morava num sítio bem distante.

Um dia, ela ganhou um livro de uma prima que morava na cidade grande. Leu “A branca de neve” até gastar os olhos, até gastar as palavras, até gastar a história e pegou a mania de olhar no espelho velho e encardido do banheiro de sua casa e perguntar:

- Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais feliz do que eu?

E a menina saia pelos campos, colhendo flores, cheirando-as. Saltitante, rodopiava sob o sol correndo atrás de coloridas borboletas.

Mas o espelho se quebrou no dia em que ela e sua família tiveram que se mudar para a cidade grande. Então sua mãe comprou um novo, grande e de moldura reluzente:

- Espelho, espelho meu, há alguém no mundo que esteja mais triste do que eu?

E a menina abriu a janela, viu muitos carros passando velozmente. Com sacrifício, vislumbrou um pedacinho do sol entre os arranha-céus, enquanto tirava os negros pêlos do lobo mau, que estavam sobre as flores de uma jardineira…

Ratatouille como uma metáfora da educação.

05 Junho 2008 por Catarina Landim

Blog Educar: Ratatouille como uma metáfora da educação.

“Todos podem cozinhar”, eis o lema do filme de animação da Disney/Pixar, Ratatouille (2007) que tem a direção de Brad Bird.

O filme conta a história de Remy, um rato que tem o olfato bastante desenvolvido e que não se contenta em roubar restos para se alimentar. Através de belas cenas e da abundância de momentos em que todos os nossos sentidos são aguçados pelo uso inteligente da sinestesia (despertar um sentido através do outro, no caso o paladar e o olfato pela visão), somos conduzidos ao mundo da alta gastronomia francesa para acompanhar  a jornada do nosso herói que se divide entre servir ao grupo em uma função massacrante, como detector de comidas envenenadas, ou tentar desenvolver sua aptidão em um local apropriado.

Depois de uma série de desencontros, Remy se vê sozinho, ouvindo apenas a voz de sua consciência que tem a forma de seu grande mestre, o chef Gousteau, que o incentiva a procurar a luz  e descobrir a “Cidade-Luz” acima de sua cabeça. Para conquistar o que deseja, o rato terá que enfrentar grandes desafios: o aprendizado em uma cozinha profissional, a família que o encontra e o crítico Ego. Para isso ele contará com a ajuda de Linguini, o encarregado pelo lixo no restaurante Gosteau’s.

Remy pretende se tornar chef e mostrar uma outra possibilidade de ação para sua família, uma que dependa da criação pessoal e não do roubo.

Eis o que nos diz Ratatouille: Todos podem cozinhar desde que se esforcem para desenvolver suas aptidões e que ouçam aqueles que acreditam em si, mesmo que seja apenas a própria consciência, para que encontre os meios e as ferramentas para alcançar o que deseja.

A maior flor do mundo

05 Junho 2008 por Catarina Landim

“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?”

José Saramago

Essa animação foi baseada no único livro para crianças escrito por José Saramago, “A maior flor do mundo”. Feito em 2007, o curta tem a direção de Juan Pablo Etcheverry e o próprio Saramago como o personagem que narra a história de um menino  e sua descoberta de um mundo mais humano.

A educação que queremos

29 Maio 2008 por Catarina Landim

Nós, Catarina, Fábio e Fabrício, conversamos há bastante tempo sobre o que pensamos sobre educação, a partir das nossas experiências como professores e como alunos, da idéia de formatar o Portaberta como um projeto didático-pedagógico a partir de um conceito mais amplo de educação, das nossas ações como artistas e o impacto que elas têm na formação do nosso público, da nossa atuação como produtores de texto. Chegamos enfim à conclusão que o ensino é só um aspecto da Educação. Entendemos a Educação como a própria essência da civilização. Que temos muito que fazer no Brasil para construirmos uma Educação de qualidade, por ainda não existir uma civilização brasileira.
Partindo das perguntas que nos colocamos, escrevemos o texto a seguir com nossas reflexões. São pontos de partida, e não portos de chegada; ainda há muito o que discutir, ainda há muito o que concluir. As idéias não estão fechadas,  nem as soluções que propomos são definitivas ou as melhores. Queremos não só saber, mas saber o que não sabemos – saber dos nossos limites, e isto só se dá com o confronto com outras idéias. Discussão e diálogo são bem-vindos!

Por que se educar?
Por que educamos nossos filhos?
Para muitas pessoas é bobagem fazer as perguntas acima, a importância da educação parece daquelas verdades auto-evidentes que não precisam de demonstração nem de provas para subsistir. Estamos tão acostumados aos elementos de nossa vida cotidiana que esquecemos que o presente, o que somos e o que temos, não nos foi dado de bandeja pelas gerações passadas, e sim arduamente conquistado por elas. A civilização, por maiores que sejam os seus defeitos, é o nosso maior bem porque é a soma de todos os nossos bens, materiais e intangíveis, é o que nos torna humanos, é o que dá o sentido à nossa vida, mesmo que seja somente um sentido provisório.
Construímos a civilização em primeiro lugar para garantir nossa subsistência. Em último lugar, (há pessoas que não atingem esse propósito nem o perseguem), a utilizamos como uma plataforma de onde nos atiramos para perguntarmos, com crescente sofisticação e meios materiais, sobre os sentidos primeiros e últimos de nossa existência, aquelas velhas perguntas: de onde viemos? O que somos? Para onde vamos?
Essa plataforma garante nossa continuidade como uma espécie consciente, uma espécie que pergunta, que tenta observar o universo de fora, mesmo sabendo que isso é impossível. Esse aspecto transcendente, que garante à humanidade não apenas ter uma civilização para subsistir, para sobreviver, mas também para tentar saber qual é a razão de estarmos aqui, é o que garante a nossa vontade de continuar vivendo, inclusive em nossos descendentes.
O fato de construirmos essa plataforma aos poucos, ao longo de milênios, pressupõe um método de transmissão aos nossos descendentes que não é igual ao dos animais. Estes carregam as informações necessárias para a sua vida em seus genes, ou seja, a transmissão dos conhecimentos necessários à sobrevivência da espécie é feita por via biológica. Nós, seres humanos, desenvolvemos a civilização como um mecanismo que se auto-perpetua por meios culturais, ou seja, meios não-biológicos de registro de conhecimentos.
A educação, a partir desta perspectiva, não é só uma manifestação cultural, ou um feixe de ações destinadas a transmitir conhecimentos de uma pessoa a outra, de uma geração a outra. A educação enfeixa todos os mecanismos que capacitam o membro de uma civilização a participar dela. Ela é a base da continuidade da cultura, ou seja, é o que define mesmo uma civilização.
Por isso, a educação não se limita ao sistema de ensino formal, ou seja, à Escola. A educação dá-se na transmissão da linguagem oral, que começa na Família e prossegue no contato da criança com todos os falantes do idioma com os quais ela tem contato; dá-se pela observação das ações das pessoas de todas as idades, a famosa educação pelo exemplo, ou ainda o aprendizado pela imitação, como observou Aristóteles; pela leitura; pela conversa, discussão, debate, diálogo de cada um com sua consciência, e com as outras pessoas; pela ciência, ao buscar o conhecimento de forma metódica, organizando-o principalmente através da lógica, da matemática e das demonstrações prováveis; pela religião, ao buscar o equilíbrio pela veneração e respeito pelo que há de desconhecido; pela arte, que busca a comunicação através de conceitos de beleza partindo de outras linguagens além das linguagens oral e escrita cotidianas; há ainda muitas outras formas de transmissão de conhecimento, cada qual intrínseca às diversas áreas de atuação humana, que ajudam a sociedade tanto em sua busca pela sobrevivência quanto pela transcendência.
Cada um dessas manifestações, no entanto, é uma organização coletiva de conhecimentos que são adquiridos por indivíduos, mesmo que estejam organizados em grupo. O conhecimento, portanto, começa na vontade do indivíduo; e só começa porque houve nele o despertar da consciência.
Esse despertar pode ser dado tanto, entre outros fatores, pelo prazer de se aprender, de estudar de conhecer mais, contudo, nesse artigo não defendemos o prazer hedonista de se educar. O prazer hedonista é o prazer pelo prazer e não prevê consciência. Enfatizamos sempre, a educação para nós é antes de tudo consciência de nós mesmos.

Indivíduo e Consciência
A consciência é o que faz o indivíduo olhar para si mesmo de fora. Quanto mais essa consciência consegue confrontar os dados da própria pessoa com o mundo fora da pessoa, ela aumenta, porque abarca, a partir do próprio indivíduo, porções maiores da realidade.
Mas o que é que leva cada indivíduo a ter mais consciência do mundo? É o mal-estar, é a constatação que as coisas, no mundo e no próprio indivíduo não são boas ou, se são boas, não são perfeitas. (Como disse Platão). Constatar que o meio onde vivemos, que quem faz parte de uma civilização como a nossa sofre de um mal-estar, é o ponto de partida para chegarmos à questão que se coloca para cada um, que gera ou não a mudança de caráter de cada pessoa: o que devo fazer para, constatando que as coisas não estão boas, mudá-las para que fiquem melhores?
O aumento da consciência depende, sempre, de quanto cada um está comprometido com as mudanças em si mesmo, para que haja mudanças no mundo. Esse movimento em direção à mudança em si mesmo é o desejo de aprender. Quando o indivíduo aprende, no entanto, percebe que o desejo de aprender não foi inteiramente satisfeito, pois o aprendizado é sempre incompleto, todo saber pode ser aprofundado. Essa insatisfação o leva novamente a aprender. Esse movimento contínuo em direção a um saber mais completo, mesmo sabendo ser impossível chegar à completude, é o que gera a mudança.
O aumento da consciência leva, pois, à emancipação individual, à ação independente, pois uma consciência que quer se ampliar não é condicionada ou impedida pelos obstáculos do ambiente para aprender. A consciência se utiliza do Outro para crescer, e não para se impor; quer o relacionamento com o Outro como parceiro, e não como escravo ou senhor. A pessoa consciente vê o Outro como igual, mesmo que seja somente em suas potencialidades.
Concluímos, então, que a mudança do sistema de ensino não depende só da sociedade como um todo, de políticas públicas, de mais verbas, dos professores, dos pais ou mesmo dos alunos. Depende muito mais daquelas consciências individuais que mudaram primeiro a si mesmas, e que agora querem mudar a comunidade, a coletividade, a sociedade.
Sem essas pessoas não haverá mudança alguma, pois as instituições que geralmente culpamos pelas coisas estarem erradas – o governo, as leis, os poderes da República, o sistema econômico - são entidades abstratas que dependem de pessoas físicas para funcionarem. E acreditamos que é dos indivíduos que partem as ações de mudança.

A consciência, o Outro e o Mundo: o Diálogo
A ampliação da consciência se dá através do desejo de aprender e sua satisfação, mesmo que incompleta, como vimos. Mas é através do diálogo, uma interação da consciência com outras consciências, é que se dá uma das formas mais produtivas de aquisição de conhecimento.
Quem quer dialogar deve respeitar o interlocutor, como possuidor de uma consciência que quer compreender o mundo e a si mesmo. Reconhece que quem faz a pergunta não a faz somente para expor melhor sua idéia, como num debate retórico, mas que num esforço conjunto, de duas ou mais pessoas, é possível chegar a algumas soluções em comum.
Não só fazer perguntas, mas tentar respondê-las, contrapondo idéias diferentes e mesmo contraditórias, é o que Sócrates, na Grécia Antiga fez, e que se tornou a base da filosofia ocidental. Este método é chamado de dialética.
Dialética não é um método que lhe dá argumentos para provar aquilo que você acredita, como querem os marxistas de plantão, mas as conclusões às quais a dialética nos levam podem nos surpreender, estando longe inclusive do que imaginávamos. Não há diálogo se não há espaço para convencimento. Se um dos interlocutores parte do princípio que está correto e por força de nenhum argumento, mesmo lógico, irá mudar seu pensamento, então não há diálogo, há somente exposição de idéias.
Buscar respostas através de perguntas, contrapondo idéias diferentes, é a prática que torna possível a pluralidade em uma sociedade que se pretende aberta e livre.

Pluralidade: coexistência de visões diferentes em uma sociedade aberta
Quando há predisposição para o diálogo, adotamos como natural a postura de aceitar a existência de diferentes visões de mundo e comportamentos distintos dos nossos. Quem tem uma consciência ampliada se torna ciente de várias formas de pensamento possíveis, e pode assim escolher a que lhe mais agrada: se não há opções, não há escolha.
A pluralidade torna a liberdade possível. E juntas elas tornam possível a democracia, que é o regime político no qual as escolhas podem ser feitas a partir da consciência individual, com todas as responsabilidades que essa liberdade e pluralidade implicam.
O ensino, e a educação, precisam ser pluralistas se se quer uma sociedade pluralista. É muito mais fácil ensinar de forma autoritária e monista, adotando-se somente um ponto de vista, sem apresentar outras opções. É falta de respeito com o educando por pressupô-lo incapaz de assimilar pontos de vista diferentes entre si. Ou preguiça. Ou ignorância. Ou tudo junto.
É preciso ter mais preparo e cultura pessoal para o professor ensinar mostrando vários pontos de vista, e não somente o seu. Assim como é preciso ter pessoas mais preparadas e cultas em todas as instâncias da sociedade para que haja melhor educação, no sentido mais amplo que estamos expondo. O ensino e a educação, portanto, devem transmitir conhecimentos tendo como fundamentos a pluralidade e a liberdade, senão haverá o risco de se ameaçar a democracia, que é o direito que temos de tomar decisões coletivas a partir do julgamento de nossas consciências individuais.

Responsabilidade quanto à educação
Não basta afirmar que a educação não se dá somente pelo ensino formal. Porém, quando esse aprendizado se dá de forma insatisfatória, o grupo deve se responsabilizar de forma consciente desse ensino.
Entendemos que a primeira instituição a cuidar da educação é a Família. Célula-mater da sociedade, mesmo fragmentada, mesmo desestruturada, ela é o lugar onde se deveria começar todos os aprendizados, onde a orientação de adultos proporcionariam a estabilidade emocional necessária para a fase da vida mais crucial para a educação do sujeito. Comprometendo a educação da criança dos 0 aos 6 anos, que é a idade em que ela entra no ensino formal, todas o aprendizado posterior é comprometido.
Não é possível imaginar, no nosso entender, uma educação, ou seja, uma formação entregue inteiramente às instituições estatais de ensino formal, mesmo as que atendem essa faixa de idade. Essas instituições são instituições de ensino, e não de educação, ou seja, não estão preparadas para substituir a Família, mesmo porque isso significaria desprezar as bases de nossa sociedade, que está estruturada sob a célula da Família, e não por acaso.
Tanto é assim, que em vários países, desenvolvidos ou em desenvolvimento, como Estados Unidos, Austrália, México e outros, o home schooling, ou seja, o aprendizado escolar em casa, é uma prática que vem crescendo em número de famílias adeptas. Essas famílias reinvidicam o direito dos pais ou responsáveis de prover a educação de seus filhos eles mesmos. É um sintoma de reação à desagregação da família nos ultimos anos, à falta de confiança que esta instituição possa ser confiável, a ponto de prover a educação infantil de forma satisfatória.
Confiança na família, partindo do pressuposto que ela tem condições de escolher. Partir da certeza e não da dúvida e da desconfiança. A desagregação da família prejudica o ensino, e a educação, nas outras esferas sociais. O fato de se apontar hoje a participação dos pais nas atividades da vida escolar do filho (correção de tarefa, participação em reuniões, em festas, etc) como um fator de sucesso para o ensino escolar, talvez aponte que a educação esperada dentro de casa seria a boa educação/formação para o relacionamento social fora dela e a atenção com todo o processo educacional dos filhos.

Civilização, educação e ensino no Brasil: Equívocos no projeto de um país
Quando falamos que a educação está ruim no Brasil, normalmente colocamos a culpa na baixa qualidade da estrutura de ensino formal público. Assim, dizemos que as escolas estão mal-aparelhadas; que o professor ganha mal; que o material didático é ruim; que a política do Ministério da Educação é mal-planejada; que a legislação brasileira sobre o assunto é mal-fundamentada; e assim por diante.
Ensino é transmissão de conhecimentos específicos, pontuais. A idéia de educação comporta uma visão mais ampla. Ela transmite os conhecimentos físicos e intelectuais necessários para a pessoa tornar-se um cidadão. Um cidadão, por definição, é um habitante da cidade, da civilização (a palavra vem de civitate, uma das palavras para cidade, em latim) e portanto uma pessoa educada é uma pessoa civilizada, capaz de viver em uma cidade. O ensino, portanto, é somente uma prática que leva à educação, que é base de uma civilização.
Octavio Ianni nos diz que o Brasil não é uma civilização. Queremos ser uma civilização? As civilizações vencem um grande desafio, ou desafios, como diz Arnold Toynbee. Que desafios queremos vencer? As civilizações deixam um legado, uma herança. O que queremos deixar? A civilização pressupõe um projeto de país, de cultura, de sociedade. Temos um projeto?
Além da nossa auto-imagem ruim, que não só demonstra nossa auto-crítica, mas também nosso imenso complexo de inferioridade, que compromete a pretensão de construirmos algo grandioso como uma civilização, não temos objetivos a longo prazo.
Ou o que temos é o que nossas leis refletem: como se pode ler na transcrição do artigo 1.o da Lei de Diretrizes e Bases da Educação:

§ 2º.
A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social.

Este parágrafo obriga a educação escolar no Brasil a se vincular ao “mundo do trabalho” e à “prática social”. O que sejam esses conceitos a lei não explica; mas imaginamos que estejam ligados às idéias marxistas de Darcy Ribeiro (proponente do primeiro texto da LDB, que posteriormente para ser aprovada sofreu inúmeras emendas, recortes, e propostas que fizeram dessa lei maior da educação do Brasil um verdadeiro “Frankenstein”), que colocam toda a sua preocupação no trabalho, endossado pelos políticos de herança getulista, que vêem o povo de forma paternalista, que deve ser protegido e ser educado somente para o trabalho, para prover seu sustento, e nada mais.
Ambas as formas de pensar são prejudiciais, pois encaram os atores sociais como perversos. A forma como o marxismo encara o trabalho, trabalho diário, massacrante, que transforma o Homem em escravo do próprio Homem, e a forma getulista, que encara o povo como coitadinho que deve ser protegido pelo Pai-Estado. São ideologias que desprezam a capacidade do Ser Humano em confiar no Próximo e construir algo em torno de objetivos comuns.
Nós pensamos que o trabalho deve ser encarado como um ação árdua sim, mas não massacrante, que constrói o futuro onde queremos chegar. Uma utopia sim. Nesse caso a educação é utópica e nenhum exemplo isolado deve ser encarado como algo que não resultará em nada. Queremos é que o Brasil não seja feito de exemplos isolados, queremos que os exemplos sejam a regra e não a exceção.
Um exemplo é a cidade de São Bernardo do Campo, que colocou como prioridade o ensino não só na escola, mas no cotidiano da cidade. A cidade declarou-se “Cidade Educadora” e convocou toda a sociedade para propiciar aprendizado em todos os ambientes, não só nas escolas, mas nos espaços públicos, como ruas e parques, e privados, como lojas e empresas. Tudo num esforço coletivo para propiciar a todos um ambiente onde o ser humano realiza a maior parte do seu potencial, e não só o potencial ligado ao trabalho.
Não só as competências profissionais devem ser contempladas na Educação, como a nossa LDB quer, mas todas as instâncias da vida, sem que isso implique necessariamente que o Estado deva ser responsável por todas elas. A educação deve tornar possível o exercício e pleno gozo dos direitos fundamentais do ser humano: respeito e estímulo à formação e desenvolvimento da consciência individual e à individualidade, liberdade, respeito ao próximo, democracia. Queremos uma educação fundamentada nesses alicerces, para que se construa um país novo, e não somente para formar trabalhadores. Para isso não falta dinheiro, falta um bom projeto.
No Brasil a mentalidade é a de se dar bem, ganhar dinheiro e gozar os prazeres da vida. Típico do português explorador, que queria sombra e água fresca, o Paraíso Tropical na Terra, algo que antropólogo Gilberto Freyre já havia destacado. A manemolência e a ginga são traços de caráter muitas vezes associados ao malandro, nosso arquétipo. Como construir uma civilização baseada num tipo humano cuja principal característica é a de enganar os outros? A criatividade associada ao brasileiro muitas vezes não passa de habilidade de suporte para a malandragem, ou a gambiarra, que é um improviso, solução provisória que nosso caso se torna permanente. Tudo isso vai compor uma personalidade nacional que Darcy Ribeiro louva como se fosse uma nova síntese, algo novo na história da Humanidade, tão original que seria a base para a gênese de uma nova civilização.
Eis o projeto de civilização que temos. O fato de Ribeiro ter sido o mesmo a propor a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional e a propor nossos piores defeitos como base de uma nova civilização não é uma coincidência.
Se não pensarmos que projeto nós queremos, novamente ficaremos para trás, como pensou Samuel Huntington na obra “O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial”, em que ele diz: “…com o final da guerra fria, as distinções mais importantes entre os povos não são mais econômicas, políticas ou ideológicas. São culturais. Os povos agora estão tentando responder à pergunta mais elementar que os seres humanos podem encarar: quem somos nós? E estão respondendo em termos de antepassados, religião, idioma, história, valores, costumes e instituições…”
Resta-nos pensar em um novo projeto de país, erguido sobre outras bases, aquelas que já propomos - consciência, respeito à individualidade, liberdade, respeito ao próximo, democracia - para construirmos uma civilização verdadeira, e não um pastiche para nos auto-congratularmos de nossa ignorância e atraso. Somente assim haverá uma Educação digna desse nome, e conseqüentemente, um ensino, formal e não-formal, de qualidade.