Bom, acho que Raízes do Brasil é um clássico. Como todo clássico, ele está sujeito às leis que Ítalo Calvino proferiu em Por que ler os clássicos. Uma dessas leis, se não me falha a memória, é que um clássico é aquela obra que sempre continuaremos lendo.
Dia desses, um amigo meu me leu não sei d’aonde, sobre uma espécie de poder magnético do grande autor. Dizia que certos autores são tão fortes que parecem anunciar suas idéias, antes mesmo delas serem pronunciadas, dando-nos a impressão de que seu peso marcaria nossa compreensão de mundo, de que seríamos pressionados com tal intensidade, como se toda nossa cultura fosse esmagada por suas palavras como um paralelepípedo sobre folha de papel. Acho que o Raízes do Brasil faz isso. Causa-nos um transe, um ódio místico por que descobrimos que contrapô-lo é duro (e desprezá-lo é, simplesmente, irrealizável).
Assim, não quero aqui concluir absolutamente nada sobre o Sérgio Buarque de Holanda, nem sobre o Raízes. Quero começar a escrever, hoje, aquilo que concluirei sobre ambos, quando eu tiver meus 60 anos (e aí enfim, exausto, terminarei meu rascunho).
Depois disso, recomeçarei a ler o Raízes, juntamente com tudo o que escrevi sobre ele, para ver se, depois de mais trinta anos, eu entendo o que ele fez comigo (e com todos os muitos migos que repensaram o Raízes naqueles meus míseros 90 anos).
Não sou um grande leitor de história do Brasil e nem de nenhum dos vértices da Santíssima Trindade Gilberto Freyre, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda. Acho o marxismo no Brasil um fenômeno cultural bastante interessante, mas por outro lado, já cansei dos lenços e documentos caminhando contra o vento, dessa mentalidade latino-americana. Acho que o nosso marxismo faz parte do ethos da Cucaracho-América (apesar de me esquecer dos limites do termo ethos.... mas vá lá!)
O que eu sei é que eu gosto do Sérgio do Raízes. Acho que todas as relações que mantenho com ele são tão dialéticas quanto todas as dialéticas que ele propõe como estrutura hermenêutica da obra. Explico: sinto amor e ódio, inveja e desprezo, companheirismo e solidão, descrença e credulidade, perdão e intolerância, punição e reforço.
Quando isso acontece, a gente sabe que encontrou nossa temida “angustia da influência” e daí parece que vivemos a engolir testemunhas de acusação e defesa que, brigando, passam pela nossa garganta e vão, batendo portas, parar no meio do coração.
Sérgio Buarque de Holanda do Raízes do Brasil é o comunista que eu mais odeio e admiro, é o historiador que eu mais debocho e estudo, é o que eu mais cito e ignoro, é o ensaísta que eu mais desprezo e respeito... Mas se disseres que eu o invejo, isso sim, eu nunca negarei.
Mas o que mais me enfurece, e aí não tem perdão nem poesia, é quando o reduzem, quando acham que ele pode ser uma coisa una, numa espécie de dialética perneta, como se o antídoto ao seu comunismo não estivesse na sua erudição e complexidade, como se sua sistematicidade não fosse só um veículo líquido para sua eutanásia libertária, como se ele fosse um daqueles livros mansos que dormem quietos na estante juntos aos demais livros de história, (enquanto os de poesia fazem farra no andar de baixo)... Isso me ofende, me ofende o uso do Raízes e do Sérgio do Raízes como obra fechada, como palavra finda, como cartilha suave, como bula de placebo, como acabado e acabando... Como se não fosse um livro escrito por um senhor provocador e agressivo que trepou com a história, só para veicular suas ânsias transformadoras, ainda além dos gêneros literários e para junto dos ardis da ficção. Morte a todos aqueles que não escutam a sinfonia das Raízes e do Sérgio que, nelas, habita.
Dedico toda a minha paixão ao Sérgio Buarque de Holanda do Raízes (e nem sei se quero outros, a mim, esse me basta!)
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