O desafio das esquerdas
Ilustração de Catarina Landim

Já não é de ontem que o pensamento de esquerda como um todo – e o brasileiro em particular – vem fazendo a experiência de um certo mal-estar. E se continuarmos a mascarar esse dado, que é factual, não nos restará outra senão a saída mais rasteira, imputar a terceiros uma culpa que nos pertence quase que única e exclusivamente.
A queda do muro de Berlim e o conseqüente fim da bipolaridade que governara o século XX impuseram ao pensamento de esquerda um abalo só comparado às revelações de Nikita Kruschchev no XX Congresso do Partido Comunista Soviético, em 1956, a respeito do genocídio perpetrado por Stálin. Mas a queda da URSS – que desde de 1917 povoou o imaginário da esquerda, mesmo o dos críticos de seus excessos, como a concretização da utopia revolucionária – e a conseqüente falência do projeto cubano significaram o desaparecimento desse marco de referência, o que deixou toda a esquerda sem rumo. Não foi sem certa perplexidade que Antonio Cândido, que nunca militou nas fileiras do PC, acompanhou a derrocada soviética: “Mas tenho dificuldade de analisar o futuro possível. No dia em que vi o Exército da Salvação distribuindo sopa para o povo em Moscou, deixei de especular.”
Era o fim não só da concepção de uma alternativa para o atual estado das coisas, como a própria idéia de que esse estado atual será melhor, mesmo que seja no mais distante dos futuros. Tudo isso deixou de ser verossímil. Estamos condenados a viver com palavras com que Robert Kurz abre seu estudo sobre a derrocada do que chama de “socialismo de caserna”. Parece não restar dúvidas de que, com o fantasma da esquerda expurgado, o mundo pôde, então, atingir o seu irônico télos: o triunfo ideológico da economia de mercado.
Por um breve momento, nós, brasileiros, tivemos a ilusão que poderíamos passar ao largo da falência de todo esse ideário. A eleição de um metalúrgico semi-analfabeto para a presidência da República era um marco que nem seus adversários mais ferrenhos podiam ignorar. Mas essa ilusão durou muito pouco. A adesão a um modelo neoliberal de conduzir a economia foi só o primeiro dos abalos – a meu ver, de importância muito menor do que quiseram atribuir-lhe. Contudo, os desmandos que a Cúpula Majoritária do PT promoveu em 2005 tiveram, esses sim, conseqüências avassaladoras. Eles abriram espaço para que se promovesse uma campanha de deslegitimação completa de qualquer possibilidade de uma alternativa viável de governo – muito em parte porque foi isso mesmo que se deu, mas também muito em parte porque certos ranços preconceituosos, que outrora se mostravam velados, acharam condições propícias para vir à tona.
Há ainda uma outra questão com a qual os pensamentos de esquerda não têm conseguido lidar: a aparente ausência de um inimigo tangível. As ditaduras de direita acabaram. As democracias liberais triunfaram e com elas a liberdade de imprensa. Qualquer um pode se fazer as críticas que quiser, contra quem bem entender – e os limites da civilidade são, mais das vezes, ignorados. O capitalismo, por seu turno, perdeu sua faceta demonizada. FMI, BIRD, globalização já não tem o peso de outrora. (Presenciamos, inclusive, um fato digno de nota: um dos vilões da novela das oito, ao lado do tão batido empresário inescrupuloso, é Rudolf Stenzel, um hipócrita militante de esquerda.)
Os seus discursos perderam a capacidade de mobilização de outrora, talvez por causa da crosta de poeira que os cubra. Há alguns anos, em Salvador, os estudantes secundaristas organizaram um dos movimentos sociais mais interessantes de que tive o prazer de presenciar. Em decorrência do aumento do preço das passagens dos ônibus, os estudantes saíram das salas de aula e fecharam as principais ruas da cidade. Era algo caótico e anarquista, sem lideranças, sem pautas bem definidas, sem reuniões conciliatórias. Ninguém sabe como começou, quem começou, mas em menos de uma semana a cidade estava completamente tomada. Aí entraram em cena os partidos de esquerda travestidos de grêmios estudantis. Assumiram o papel de porta-vozes do movimento, sentando-se à mesa com os poderes públicos e com os donos das empresas de ônibus para fecharem os acordos necessários à normalização da cidade. Acontece que, em nenhum momento, os partidos de esquerda foram capazes de entender o que se passava – até mesmo porque havia muito de ininteligível naquilo tudo –, nem de canalizar toda aquela energia que se dispersou com a mesma rapidez com que explodiu. Para mim, apenas uma coisa ficara clara: o abismo entre as reivindicações populares e os discursos das esquerdas está cada mais intransponível.
As razões desse processo são difíceis de se explicar. Não se pode ignorar que os discursos das esquerdas foram produzidos para um contexto democrático, embora este tenha sido, mais das vezes, um dos seus principais pontos reivindicatórios. Cunhados dentro de um quadro bem definido de categorias antitéticas – bom x mal, pobre x rico, desenvolvimento x subdesenvolvimento –, os conceitos com os quais as esquerdas pensavam dar conta da realidade não mais a descrevem a contento. Com o descrédito das categorias absolutas e do poder de captação moral através da constatação de uma verdade inatacável – as quais sempre foram duas das principais armas argumentativas de que se valeram os discursos das esquerdas –, estas se perderam, pois ainda não se deram conta de que a autenticidade, hoje em dia, nada mais é do que uma construção de linguagem.
Mas ao contrário do que pensam nossos companheiros de esquerda – cada vez mais saudosos dos tempos de ditadura, quando tinham um inimigo óbvio e visível – nosso desafio é menos épico. Ao invés de pronunciamentos grandiloqüentes, as tarefas que nos cabem são mais prosaicas. Devemos, por um lado, revalidar os discursos das esquerdas numa concepção mais contemporânea, o que significa tomá-los não como verdades inquestionáveis, mas como possibilidades passíveis de erros e correções. Por outro lado, devemos combater um inimigo muito mais insidioso – exatamente porque se move com discrição e sem alarde – do que os monólitos ditatoriais: todas as formas de pensamento que imponham limites para a liberdade humana.

